terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O Homem-barata

O Homem-barata zapeava canais da televisão atrás de nem ele sabia o quê.
Porém não encontrava nada para agradá-lo, e perdia o sono.

O brilho da TV refletido nos olhos, a boca emudecida e entre-aberta, o dedo apertando o botão esquerdo do controle remoto, em movimento peristáltico. Instantes de escuridão e silêncio até que o próximo canal ilumine a tela. Silêncio da madrugada. Luz dos jatos de elétrons. Escuro da noite alta. Vozes de pessoas impalpáveis.

Ele nunca se resolveria.
Nem pelo canal que prestaria sua atenção nem pela vida que arrastaria depois que a insônia acabasse e o sono chegasse e a manhã viesse para que mais um dia indiferente se passe. O Homem-barata é um ser imediatista, quer uma vida nova como quer um canal novo, sem nenhum esforço além da contínua pressão exercida pelo polegar.

O brilho continuaria sendo apenas refletido, até que ele conseguisse se acender e produzir luz própria. "Mas isso toma um tempo... Bom é me aconchegar e me ligar na única fonte iluminada da madrugada."
Ele se esquece que a TV também acaba sendo desligada, e há muito já se esqueceu do brilho dos astros do céu, tão fora de alcance.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Você nem ao menos quis saber como foi o meu dia. Poderia ter me perguntado, nem que fosse apenas por educação, ou para me deixar alegremente iludida.
Pois bem, me encontrei com uma amiga que não via há muito tempo, e enfrentei uma chuva que molhou até meus ossos.
Nada fora do comum.

Eu não te contaria mesmo.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Summertime

Venho sem muito pique para escrever ultimamente. E quando não são escritas, minhas memórias tornam-se cinza com mais rapidez que o normal. Logo agora, quando elas precisavam tanto de ser rememoradas...
Conheço uma garota que a cada momento, seja bom ou ruim, olha para o céu com o intuito de guardar nessa eternidade azul estrelada o que já tinha passado. Ela deixa suas memórias ali, onde todos podem espiar, mas apenas ela compreende e aprecia o que vê. Assim, poderia entrar no mais íntimo de si quando se encontrasse com a grandeza de uma noite comum. Ela, transformando-se cada dia em uma pessoa diferente, e o céu sempre semelhante aos nossos olhos desatentos, a observá-la e guardá-la, em qualquer lugar temporal ou geográfico em que ela resolva consultá-lo.

Porém, eu não tive esta propriedade. Bastou-me este blog que cá existe, estático, alheio as perturbações que acontecem fora do seu espaço virtual.
Já disseram que palavras são capazes de transpassar tempo e espaço, e um dia, em algum lugar, todas essas que eu manipulei com os dedos no teclado voltarão aos meus olhos, não só para fechar o ciclo, mas também para finalmente fazerem sentido.
Então aqui estou. Dispondo-me analiticamente em palavras, para que eu possa encarar-me e descobrir-me. Pode ser que demore. Não tenho pressa. Não para isso.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pequeno Mundo

Prestes a me tornar a tia Mari, e após dois sonhos relacionados a gravidez, venho observando com mais indiscrição que o normal os seres humanos em miniatura, vulgas crianças.
Tudo tem que lhes ser ensinado, eles são definidos pela dependência. As mãozinhas seguram com firmeza o tecido da blusa da mãe, e, quando maiores, a mão do pai para passear por aí, colocando sorrisos no rosto de desconhecidos. São tão curiosos, o mundo é tão novo, e os olhos tão brilhantes e vívidos, que parecem cheios da vontade gulosa de engolir de uma só vez toda a complexidade do que há em volta. Já repararam que eles não piscam tanto como os adultos? É pra não perder tempo neste bater de pestanas. Para os pequenos, cada décimo de segundo é tempo demais a perder. E assim eles vão passando, aprendendo a amarrar os cadarços aqui, subindo precariamente nas cadeiras por lá, ao olhar atento dos pais, sempre.

Estava num restaurante, onde mais uma vez pude observá-los de perto, e reparei em outro movimento de atrapalhada candura: o uso dos talheres. Pois além de criar, ensinar os parâmetros de certo e errado, levar à aula de natação e ao colégio, os pais ainda ensinam a usar os talheres. A faca, que a mais de 1,5 milhões de anos ajuda o homem a matar inimigos, caçar alimentos, e passou a ser usada nas mesas da Renascença Italiana, no séc. XIV, a mando das boas maneiras, era, naquele momento, motivo de um sorriso precariamente escondido na minha boca ao espiar o garoto. Com os pés balançando – pois não alcançavam o chão – o garoto travava uma pequena batalha contra a carne que não se deixava partir, apesar de seus esforços em adestrar os dedos nos talheres. Até que, ele tornou-se tão inquieto por não conseguir concluir a tarefa, que a mãe tomou-lhe os talheres, fatiou a carne em pedaços mastigáveis e acabou com a minha graça, mas não com a minha bisbilhotice. Mãe e filho ficaram por lá mais alguns instantes, a tempo de dividirem um sorvete, enquanto o garçom trazia a conta. Deixei-os. Concentrei meus olhos em meu pai, que almoçava sentado a minha frente. Este que me viu crescer, e acompanhou-me pela mão. Este, que provavelmente já vê em mim a Mariana que fará vestibular em quatro meses, mas sem se esquecer jamais daquela que subia com esforço nas cadeiras e não tinha destreza alguma para fatiar o bife. Pois ela ainda existe, por trás da atual e de todas as outras que virão.